Não é difícil encontrar, quando entramos em grupos destinados a psis e recém-formados, que o tema dominante é quase sempre o da urgência individual/pessoal. E há aquela famosa e recorrente pergunta: "O que eu faço para ter mais pacientes?".
O mais interessante disso tudo é que, com essa pergunta, o que costuma vir como resposta (de nós psis) é uma lista de tarefas solitárias/isoladas: gravar vídeos, pagar alguém para cuidar da marca, encontrar a rede social perfeita, ajustar a estética do perfil, achar o nicho perfeito, buscar a melhor plataforma de atendimento...
É curioso perceber como a gente foi inclinado a lidar com um problema frequente do trabalho de forma isolada e individualizada. A sensação que fica para mim é como se a saída (e a única saída) para a construção da clínica estivesse na capacidade de cada um se virar sozinho diante da sua realidade.
Interessante, não?
E olha o pulo do gato: a rede social vende muito bem essa visão (e, por que não, ilusão) de que você está no controle absoluto e que tudo depende exclusivamente das suas tentativas e do seu esforço físico, mental e... financeiro.
Não há o pensamento sobre o outro, de pedir ajuda, de criar ou tentar construir novas relações. Se tornou uma estratégia bem direta, curta e rápida, mas... solitária.
E aqui vai uma pergunta: por que não podemos convidar a outra pessoa para uma conversa? Por que não pensar que a possibilidade de uma estratégia para ampliar a sua clínica seria construir novas relações de confiança e parceria?
Tenho a visão de que, quando sentamos para conversar (de forma honesta e sincera), algo muda na visão e percepção da profissão: percebemos que não estamos sozinhos.
Além disso, a confiança que faz um profissional indicar um paciente para você não nasce de um post bonito e bem elaborado nas redes sociais. Ela nasce da frequência, do tempo e da presença, de saber como o outro pensa, de ter trocado uma ideia sobre um caso difícil, de ter percebido a responsabilidade, manejo clínico e o cuidado na fala do outro.
E sim, eu sei bem de uma coisa: construir relações dá trabalho. Exige tempo, exige se expor, exige ouvir o outro e criar responsabilidades.Será que é por isso que deixamos isso de lado?
Por fim, fico aqui pensando: por que continuamos a dar essa responsabilidade e espaço apenas para a individualidade/isolamento e esquecemos o poder do coletivo e da rede de apoio?
Texto usado como referencia: O trabalho na era da plataformização de Mônica Gurjão