Se tem um termo que me dá calafrios no mundo da psicologia clínica é: "alta na terapia".
Vejo muitas vezes pacientes e psis usando esse conceito pelas redes como se fosse o grande objetivo final de um processo terapeutico. Mas gostaria de convidar você a fazer uma reflexão comigo.
Quando falamos de terapia, estamos falando da construção de uma relação horizontal. Isso significa que paciente e psicólogo caminham juntos, ocupando papéis de igual importância, sem que um esteja em um degrau acima do outro.
Espera, como assim?
No senso comum, fomos ensinados a pensar que o psicólogo é uma figura mística: aquele que sabe de tudo, decifra as profundezas do inconsciente, domina o cérebro na palma da mão e guarda no bolso todas as respostas e truques para a saúde mental.
A verdade é que, por mais que a gente estude, se dedique, faça cursos e adquire experiencia... nós não sabemos tudo. E o mais importante: nós não sabemos nada sobre quem é você antes de você atravessar a porta do consultório e termos as nossas primeiras conversas.
Li uma vez em um livro uma frase: “precisamos sair da cadeira do dono do saber”. Essa cadeira representa justamente essa postura de se colocar como aquele que detém todas as verdades sobre a dor do outro.
Mas, voltando para a horizontalidade: se ambos têm sua importância e a relação é construída a dois, colocar a prática clínica sob o olhar da "alta terapêutica" gera uma confusão...
O que essa alta realmente significa?
Quem determina quando ela chega?
E quanto tempo ela dura?
Dar "alta" a alguém pressupõe um olhar unilateral. É a imagem de um profissional dizendo: "Eu, o detentor do saber, identifiquei em você coisas que mostram que você melhorou, superou e está devidamente tratado".
Mas quando olhamos para a existência de perto, percebemos o quão delicado e perigoso é tentar colocar a vida nesses sentidos: superar, melhorar, tratar.
A vida real não é tão simples e linear assim...
Ao contrário desse termo, prefiro e gosto bastante de usar dentro do meu consultório o processo terapêutico.
Quando chega o momento de encerrar a terapia (quando você decide que a terapia, comigo, cumpriu o seu papel e não faz mais sentido para o seu momento atual), o que acontece é que o processo terapêutico comigo se finalizou.
Percebe a sutil (e enorme) diferença?
Por ser um processo, a caminhada da terapia não tem começo, meio e fim engessados ou determinados.
Existe uma continuidade.
Esse movimento pode seguir comigo, com outro profissional ou sem nenhum no momento. O ponto central é que você tem a decisão e o direito de escolher quando quer terminar, pausar, continuar ou recomeçar.
Quando usamos a palavra "alta", o sentido que fica é o de que a existência pode ser concluída, fechada ou totalmente "resolvida".
E no fim: quem sou eu, enquanto psicólogo, para determinar se a sua vida está resolvida ou não?