Quando se trabalha a depressão na clínica, é importante trabalhar também a questão da pressão pessoal/existencial. É comum pensar que uma das formas de lidar com a depressão é colocar o "fazer" no "não fazer". Mas isso pode ser delicadíssimo em alguns casos.
Há várias formas de sentir e lidar com a depressão. E tem uma que talvez seja uma das mais desconfortáveis: o peso de existir.
Levantar da cama é pesado. Tomar banho é difícil. Sair de casa parece impossível. Falar com alguém, custoso.
Nessas situações há um paradoxo. Há pesquisas que mostram que realizar certas atividades pode ajudar a lidar melhor com a depressão, mas... dependendo da forma como isso é colocado, a pessoa pode se sentir ainda "mais pesada" e sem energia para sair do lugar.
Nessas horas, um dos manejos importantes na clínica é ir trabalhando esse "fardo existencial", esse peso da vida. Isso vai muito além de uma questão racional e passa também pelo afetivo.
Na depressão, muitas vezes, a vida pesa. E o que precisamos trabalhar é justamente como, aos poucos, diminuir esse peso.
Assim, vão sendo construídas estratégias e possibilidades de saída, aos poucos. Mas, antes disso, é preciso diminuir a tensão diante das escolhas e da própria vida. Colocar mais uma tarefa no começo pode assustar e até atrapalhar o tratamento.
Indo um pouco mais além, também é importante, com o passar da terapia, trabalhar questões de temporalidade (como ela lida com o passado, presente e futuro), corporalidade (como sente o próprio corpo ao longo dos momentos do dia), relação com o outro e como ela se coloca no mundo.
Mas então, como seria um manejo a partir dessa reflexão?
De forma muito simplista, é respeitar o processo (seus limites, sua velocidade etc.) de forma singular.
Cada paciente possui a sua própria realidade e contexto, e é a partir disso que vamos encontrando informações e construindo um "mapeamento" de como aquela pessoa pode lidar com a situação que está vivenciando.
Para uma pessoa, sair da cama pode ser um desafio enorme. Para outra, a atividade física pode ser importante.
Então, ao contrário de supor o que é melhor para o outro, vamos, a partir da relação, construindo estratégias com as quais ele consiga lidar.
E isso precisa acontecer de forma bastante delicada e com paciência, para que essas novas estratégias, que estão sendo construídas com um novo sentido, não sejam colocadas como um "dever".
Uma das formas é introduzir essas atividades como um "fazer pelo fazer".
"Vai lá e testa. Vê como é."
Lógico que, em certos casos, há, sim, o trabalho de higiene do sono, tratamento médico (quando necessário), mudanças de hábitos e rotinas.
Mas tudo precisa ser construído com calma e respeitando o tempo do paciente.
E qual é esse tempo?
O tempo dele.